quarta-feira, 30 de julho de 2014

O PRANTO DE MARIA PARDA - GIL VICENTE


"Farsa de Inês Pereira" - Resumo da obra de Gil Vicente

Tendo como mote um ditado popular, “mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”, Gil Vicente escreveu esta comédia de costumes retratando o comportamento amoral da degradante sociedade da época.

Lista de personagens
As personagens do teatro vicentino não têm profundidade psicológica e são tipos ou alegorias, ou seja, são como representações de grupos, instituições ou ideias abstratas. Servem, assim, a uma finalidade moral preconcebida pelo autor. O modo de falar das personagens reproduz a maneira típica com que as camadas sociais e profissões que essas personagens representam falavam.

Inês Pereira: moça bonita e solteira, que para se livrar dos afazeres domésticos sonhava em se casar com um fidalgo.

Mãe: típica dona de casa preocupada com a educação e o futuro da filha.

Lianor Vaz:
 casamenteira que só respeita a opinião pública quando lhe convém.

Latão e Vidal: caricaturas do judeu espertalhão e hábil no comércio.

Pero Marques: camponês rico, porém, ignorante e sem nenhum traquejo social.

Brás da Mata (Escudeiro): escudeiro pobre que mal tinha dinheiro para se sustentar.

Moço (Fernando): criado de Brás da Mata, é humilde e se deixa explorar pelo patrão, sempre acreditando nas mentiras que ele conta.

Ermitão: falso monge que declara ter se tornado ermitão por desilusão amorosa.

Resumo
Inês Pereira é uma moça bonita e solteira que se vê obrigada a passar o dia em meio às tarefas domésticas. Inês sempre fica se queixando e vê no casamento a chance de se livrar dessa vida. Ela idealiza o noivo como sendo um moço bem educado, cavalheiro, que soubesse cantar e dançar, enfim, que fosse um fidalgo capaz de lhe dar uma vida feliz.

Um dia, Lianor Vaz, a casamenteira, chega na casa de Inês dizendo que havia sido atacada por um clérigo, mas que conseguira escapar. Lianor, porém, foi à casa da moça para relatar que Pero Marques, um rico camponês, quer se casar com Inês. A moça, então, lê a carta que Pero escreveu com suas intenções de casamento, mas ela não se conforma com a rusticidade do moço e concorda em recebe-lo só para rir da cara dele.

Lianor vai então buscar Pero e, enquanto isso, a mãe de Inês a aconselha a receber bem o pretendente. Quando o moço chega, ele se comporta de modo ridículo e demonstra não ter nenhum traquejo social. Vendo-se à sós com Pero, Inês o desencoraja quanto ao casamento e o moço vai embora. Nisso, ela informa à mãe que havia contratado dois judeus casamenteiros para encontrar um noive que tivesse boas maneiras.

Entra em cena Latão e Vidal, os dois judeus casamenteiros, que vieram oferecer Brás da Mata, um escudeiro. Armado o encontro entre os dois jovens, Brás da Mata planeja ir à casa de Inês acompanhado de seu criado, o Moço, e os dois combinam contar uma série de mentiras para enganar a moça e conseguirem dar o “golpe do baú”. Já na casa de Inês, Brás da Mata age conforme ela queria: a trata de modo distinto com belas palavras, pega a viola e canta. Ele a pede em casamento, mas a mãe diz que a moça não deve fazê-lo, ao que os judeus contra-argumentam elogiando Brás de todas as formas.

Os dois se casam e a mãe presenteia os noivos com a casa. À sós com Brás, Inês começa a cantar de felicidade, mas ele se irrita e manda que ela fique quieta. Brás começa, então, a impor uma série de regras e exige que a moça fique trancada o dia inteiro em casa, proibindo-a até mesmo de olhar pela janela e de ir à missa. Pouco tempo depois, Brás informa ao Moço que partiria para a guerra, ordenando que ele vigiasse Inês e que ela deveria ficar trancada à chaves dentro de casa. Trancada em casa e não fazendo nada além de costurar, Inês lamenta e sua sorte e deseja a morte do marido para que pudesse mudar seu destino.

Passado algum tempo, Moço aparece com uma carta do irmão de Inês onde ele informa que Brás havia morrido covardemente tentando fugir do combate. Feliz, Inês despede Moço, que vai embora lamentando seu azar. Então, sabendo que Inês havia ficado viúva, Lianor Vaz retorna oferecendo novamente Pero Marques como novo marido. Dessa vez Inês aceita e os dois se casam.

Com a ampla liberdade que o marido lhe dava, Inês parecia levar a vida que sempre desejou. Um dia, chega em sua casa um Ermitão a pedir esmola e Inês vai atende-lo. Porém, este é um falso padre e o deus que ele venerava, na realidade, ela o Cupido. Inês reconhece o moço, que havia sido um antigo namorado seu. Ele diz que só havia se tornado ermitão porque ela o havia abandonado e começa a se insinuar para Inês, acariciando-a e pedindo um encontro entre os dois. Ela aceita e os dois marcam um encontro.

No dia marcado, Inês pede a Pero Marques que a levasse à ermida dizendo que era por devoção religiosa. O marido consente e os dois partem de imediato. Para atravessar um rio que havia no meio do caminho, Pero Marques carrega a mulher nas costas e essa vai cantando uma canção alusiva à infidelidade dela ao marido e à mansidão dele. Pero segue cantando o refrão, terminando como um tolo enganado.

A Farsa de Inês Pereira -  adaptado


Todo Mundo e Ninguém - Auto da Lusitânia - Gil Vicente (1531).




Um rico mercador, chamado "Todo o Mundo" e um homem pobre cujo nome é "Ninguém", encontram-se e põem-se a conversar sobre o que desejam neste mundo. Em torno desta conversa, dois demônios (Belzebu e Dinato) tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens. 
Representada pela primeira vez em 1532, como parte de uma peça maior, chamada Auto da Lusitânia (no século XVI, chama-se auto ao drama ou comédia teatral), a obra é de autoria do criador do teatro português, Gil Vicente
Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:

Ninguém:
Que andas tu aí buscando?
Notas de tradução
Todo o Mundo:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
 
porém ando
 porfiando
por quão bom é porfiar.
 
Porfiando: insistindo, teimando.
Ninguém:
Como hás nome, cavaleiro?
O verbo haver nestes versos tem o sentido de ter.
Todo o Mundo:
Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e
 sempre nisto me fundo.
E sempre nisto me fundo: e sempre me baseio neste princípio, nesta idéia.
Ninguém:
Eu hei nome Ninguém, 
e busco a consciência.
Belzebu:
Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
 
Dinato:
Que escreverei, companheiro?
Belzebu:
Que ninguém busca consciência. 
e todo o mundo dinheiro.
 

Ninguém:
E agora que buscas lá?
Todo o Mundo:
Busco honra muito grande.
Ninguém:
E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu:
Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra todo o mundo
e ninguém busca virtude.
Adição: acrescentamento.
Acude: ocorre.

Ninguém:
Buscas outro mor bem qu'esse?
A palavra mor, muito pouco empregada atualmente, é uma forma abreviada de maior. Poderíamos dizer, pois:
buscas outro maior bem...
Todo o Mundo:
Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém:
E eu quem me repreendesse 
em cada cousa que errasse.
 
Belzebu:
Escreve mais.
Dinato:
Que tens sabido?
Belzebu:
Que quer em extremo grado
todo o mundo ser louvado,
 
e ninguém ser repreendido.

Ninguém:
Buscas mais, amigo meu?
Todo o Mundo:
Busco a vida a quem ma dê.
Ma: me+a. Contração dos pronomes pessoais oblíquos, objeto indireto e direto, respectivamente.
Ninguém:
A vida não sei que é, 
a morte conheço eu.
Belzebu:
Escreve lá outra sorte.
Dinato:
Que sorte?
Belzebu:
Muito garrida:
Todo o mundo busca a vida
e ninguém conhece a morte.
 
Garrida: engraçada.

Todo o Mundo:
E mais queria o paraíso, 
sem
 mo ninguém estorvar.
Mo: me+o. Contração do pronome objeto indireto me com o pronome demonstrativo objeto direto o. Entenda-se no texto: sem ninguém estorvar isto a mim. 
Estorvar: atrapalhar.
Ninguém:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
 
Ponho: entenda-se: proponho.
Belzebu:
Escreve com muito aviso.
Dinato:
Que escreverei?
Belzebu:
Escreve
que todo o mundo quer paraíso
e ninguém paga o que deve.
 

Todo o Mundo:
Folgo muito d'enganar, 
e mentir nasceu comigo.
Folgo: tenho prazer, gosto.
Ninguém:
Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.
Belzebu:
Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato:
Quê?
Belzebu:
Que todo o mundo é mentiroso, 
E ninguém diz a verdade.

Ninguém:
Que mais buscas?
Todo o Mundo:
Lisonjear.
Lisonjear: elogiar.
Ninguém:
Eu sou todo desengano.
Belzebu:
Escreve, ande lá, mano.
Dinato:
Que me mandas assentar?
Belzebu:
Põe aí mui declarado, 
não te fique no tinteiro:
Todo o mundo é lisonjeiro,
 
e ninguém desenganado.
mui: forma reduzida de muito.


terça-feira, 22 de julho de 2014

LITERATURA PORTUGUESA- BAIXA IDADE MÉDIA

Segundo Período - séc XV ao XVI (1418-1527) - baixa idade média
HUMANISMO EM PORTUGAL
O desenvolvimento do comércio, o crescimento das cidades e  a prosperidade da burguesia mercante tornaram anacrônica a antiga ordem feudal (fechada, teocêntrica, agrária e descentralizada); assim como a criação de um novo tipo de nobreza, o desenvolvimento do comércio marítimo e as primeiras viagens de descobrimento pelo Atlântico, nomeadamente a chegada às ilhas dos Açores e Madeira. 

A burguesia tinha interesses nacionais (unificação da moeda, transporte, segurança) e por isso alia-se à monarquia, fortalecendo o poder do rei, a quem dá sustentação política e paga impostos. É o embrião da monarquia nacional, absolutista. 

Em Portugal, a reação burguesa contra a ordem feudal foi liderada por D. João I, o Mestre de Avis (dinastia portuguesa de Avis). 


Esta época se caracteriza pelo HUMANISMO - fundamentalmente por um processo de humanização da cultura. Foi um movimento intelectual iniciado na Itália, entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, entre os séculos XV e XIV. Na verdade, o século XV português corresponde, em consonância com o resto da Europa, ao nascimento do mundo moderno, na medida em que inaugura um tipo de cultura preocupado com o homem, seja enquanto indivíduo, seja enquanto coletividade. 

Marca a transição da cultura teocêntrica, isto é, tendo Deus  como escala de valores, religiosa e feudal para a cultura antropocêntrica, clássica, apoiada na consciência de que o homem é uma força criadora capaz de dominar o mundo e transformá-lo. É importante levar em consideração que essa mudança na maneira de conceber o mundo não ocorreu de uma hora pra outra e que a religiosidade  não desapareceu. Em Portugal marca-se pela convivência dos antigos valores medievais com os valores clássicos que predominarão no Renascimento, 
rompendo com a forte influência da Igreja e do pensamento religioso da Idade Média e em que conviveram duas visões de mundo: a teocêntrica e a 
antropocêntrica.

O Renascimento em Portugal coincide com o apogeu do império português. Sob o reinado de D. Manuel, o Venturoso, o país vive uma intensa euforia com os êxitos marítimos e com a prosperidade econômica. 

Por volta de 1439 -  Johannes Gutenberg inventou um tipo mecânico móvel para impressão começou  a Revolução da Imprensa

A restauração da cultura clássica greco-romana repõe em circulação, acelerada, através da imprensa, as ideias dos modelos de Sêneca, Cícero, Ovídio, Tito LívioAristóteles, Platão. Essa ressurreição inicia-se  na, Itália. E Portugal, os clássicos chegaram indiretamente, através da Itália, dado o relativo atraso da imprensa. As primeiras oficinas tipográficas surgiram a partir de 1487.

Uma consequência direta, na área cultural é a criação de bibliotecas fora dos conventos. Os direitos ligados à individualidade também são valorizados.  A cultura torna-se laica em grande parte de suas expressões; e a educação do homem, fidalgo sobretudo, constitui o objectivo da literatura moralista então escrita; nas crônicas de Fernão Lopes, o povo, a massa popular, comparece pela primeira vez.




PRODUÇÕES LITERÁRIAS em Portugal
É um período iniciado em 1418, quando D. Duarte nomeia Fernão Lopes como guardador da Torre do Tombo, o arquivo central do Estado Português desde a Idade Média, e termina quando Sá de Miranda retorna da Itália, em 1527, trazendo para Portugal a cultura clássica.

O segundo período medieval tomou quatro direções:
1. A prosa histórica
2. A prosa didática e moralizante 
3. A poesia palaciana
4. O teatro popular medieval de Gil Vicente.


POESIA
Com a centralização monárquica, o palácio torna-se o centro da produção cultural e artística.
Os artistas abrigam-se na corte, sob a proteção dos reis e da nobreza, que se tornam seus mecenas (=protetores).
Só a partir da segunda metade do século XV é que a Poesia volta novamente, e em força – um novo tipo de poesia, designada de “Poesia Palaciana”, mais
refinada que a trovadoresca e que reflete o novo tipo de sociedade medieval. 
Ao contrário da poesia trovadoresca que era cantada e onde as expressões dos camponeses eram valorizadas, a poesia palaciana era composta para ser lida ou declamada e valorizava a condição aristocrática, de modo que seus autores trabalhavam com maior zelo o poema. Devido a isso a Poesia Palaciana caracteriza-se por ser mais apurada, atraente e variada do que a Trovadoresca. 




Exemplo de Poesia Palaciana amorosa

“Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,

Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.”

O Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende, em 1516, reúne a produção poética de três reinados: D.Afonso V, D João II e de D. Manuel.
Cronistas
A função do cronista medieval consistia em «pôr em crônica», isto é, ordenar cronologicamente, os relatos de acontecimentos históricos. Os cronistas na Idade Média escreviam com profundidade e eloquência, imputando a sua própria análise àquilo que escreviam e muitas das vezes com bastante imparcialidade – sobretudo no relato de conflitos com nações estrangeiras – de modo a agradar ao Rei a que serviam. É por isso que os textos dos cronistas medievais, apesar de serem os melhores documentos de registo histórico da época, constituem-se também como formas de expressão artística literária.



Considera-se que a historiografia portuguesa inicia-se com a atividade do primeiro cronista real: Fernão Lopes que, em 1418,  desempenhava as funções de guarda-mor dos arquivos reais da Torre do Tombo. O fato de Fernão Lopes ter que narrar eventos passados sobre os quais não havia testemunhas oculares, levou-o a fantasiar muitos aspetos dos quais ele nunca poderia ter conhecimento e a descrever situações num estilo completamente literário, assumindo o papel de narrador omnipresente e levando o leitor a sentir que ele próprio esteve presente em grande parte dos acontecimentos.

De fato, nas suas crônicas evoca-se todo um mundo agitado e intenso: as ruas e as praças das cidades, percorridas pelas multidões exaltadas; os castelos, cheios do rumor áspero dos combates; os vastos campos de batalha, onde se dispõem os exércitos prontos para a luta; o ambiente das cortes, com as suas intrigas subtis e os dramas de amor e ambição; o desespero quando as cidades eram sitiadas, os tumultos do povo e as aclamações festivas dos populares. É precisamente este estilo literário que acabou por servir de referência aos outros cronistas que lhe imitaram o estilo, fazendo dessas crônicas obras de grande valor literário.

Teocentrismo (Deus como centro de tudo) 
Antropocentrismo (homem como o centro de interesse) 

Na Literatura, os autores italianos que maior influência exerceram foram: Dante Alighieri (Divina Comédia), Petrarca (Cancioneiro) e Bocaccio (Decameron). Os gêneros mais cultivados foram: o lírico, de temática amorosa ou bucólica, e o épico, seguindo os modelos consagrados por Homero (Ilíada e Odisséia) e Virgílio (Eneida).


1. Crônica histórica

Fernão Lopes, considerado o introdutor da historiografia em Portugal, é o principal representante do gênero. Sua obra contém ironia e crítica à sociedade portuguesa. 

Mesmo centralizando sua crônica nas ações da família real, Fernão Lopes também investigou as relações entre outras classes sociais e captou o sentimento coletivo da nação. Seu maior mérito foi conciliar pesquisa histórica e qualidade literária. 

2. Poesia palaciana
Essa poesia trata de assuntos da vida palaciana e reproduz a visão de mundo dos nobres e fidalgos que a produziam. O amor é tratado de forma mais sensual e a mulher já não é tão idealizada quanto no trovadorismo.

3. Teatro popular
Pai do teatro português, Gil Vicente também foi músico, ator e encenador. Sua obra trata de muitos temas, sempre com uma abordagem caracterizada pela transição entre a Idade Média e o Renascimento. Ou seja: do pensamento teocêntrico (marcado por elementos de religião, como céu e inferno) ao humanista (marcado pelo antropocentrismo e racionalismo).





Gil Vicente cresce nesse universo. Escreveu autos, comédias e farsas, em castelhano e em português. São conhecidas 44 peças, 17 em português, 11 em castelhano e 16 bilíngues. Destacam-se dois gêneros:

a) os autos, com a finalidade de divertir, de moralizar ou de difundir a fé cristã; e

b) as farsas, peças cômicas de um só ato, com enredo curto e poucas personagens, extraídas do cotidiano.
Ambos são plenos de críticas à sociedade.
Entre os autos, a Trilogia das Barcas ("Barca do Inferno", 1517; "Barca do Purgatório", 1518; e "Barca da Glória", 1519) reúne peças de moralidade, que constituem uma alegoria dos vícios humanos; e o "Auto da Alma", de 1518, encena a transitoriedade do homem na vida terrena e os seus conflitos entre o bem e o mal. As farsas, como "Quem Tem Farelos?", 1515; "Mofina Mendes", 1515, e "A Farsa de Inês Pereira", 1523, realizam quadros populares de força moral e simbólica, num tom cômico mais contundente.
O ponto mais forte de Gil Vicente está na criação de tipos humanos como o velho apaixonado, a alcoviteira, a velha beata, o escudeiro fanfarrão, o médico incompetente, o judeu ganancioso, o fidalgo decadente, a mulher adúltera e o padre corrupto.
Escritas em versos, as peças estão repletas de trocadilhos e ditados populares. É importante ressaltar que a crítica do dramaturgo português é muito mais aos indivíduos corruptos do que à religião em si mesma, seus dogmas e hierarquias.
Nesse aspecto, Gil Vicente crê no teatro como uma forma de denunciar a degradação dos costumes, seja na Igreja, na família ou entre as classes profissionais como os médicos ou sapateiros. Acima de tudo, acredita no poder do riso como uma maneira de recolocar o homem no bom caminho, aquele que o afasta do vício em direção à virtude.