terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O audiovisual na sala de aula


O primeiro lado da questão é inequívoco: a linguagem audiovisual está na moda. Embora a relação entre cinema e ensino seja bastante antiga,[3] a abordagem do cinema e da linguagem audiovisual em geral nunca foi tão propalada. O professor orgulhoso da autonomia de seu giz e sua voz está cada vez mais rouco e desacreditado. Espera-se cada vez mais do professor não somente o domínio de sua disciplina específica, mas também o domínio dos equipamentos e recursos tecnológicos. Todo esse rebuliço, cuja face mais evidente é a corrida das editoras para “transpor” os livros didáticos para o formato dos tablets, é, na verdade, o contrário do que parece. Afinal, inserir a linguagem audiovisual sem uma discussão profunda sobre a escola atual ou “transpor” materiais didáticos para os novos recursos tecnológicos são medidas geradoras de uma inserção inócua, um incluir como acessório, sem incorporar de fato.
Tudo leva a crer que caminhamos a passos largos para construir as escolas do século XXI: cada aluno com seutablet e o professor na sua lousa digital. Em um filme hollywoodiano, o professor rouco do começo do filme jogaria o seu giz no lixo na cena final e suspiraria de felicidade ao conversar com os alunos pelo seu smartphone. Assim como em outras áreas da vida contemporânea, na educação também somos levados a acreditar nas soluções fáceis e práticas, associadas a um gradualismo muito bem casado com as demandas de mercado. O consenso acerca da linguagem audiovisual tem se transformado, mais e mais, em um consenso sobre um determinado modelo de inserção da linguagem audiovisual nas escolas. E essa armadilha, montada para atingir toda a sociedade, tem afetado principalmente o professor, pois ele é submetido a esse modelo mediante forte coação da moda audiovisual e tecnológica. Criticar o modelo significa ser submetido, implícita ou explicitamente, a toda uma série de adjetivos crucificadores. Bem ao gosto neoliberal, o que se cria é um caminho único não mais sob a coação direta, expressamente autoritária, mas por meio de um jogo disfarçado, irradiado pelos gestores públicos e pelo mercado, do qual o professor do futuro não pode ficar fora.
O objetivo deste post é duvidar do simplismo tão típico dos nossos tempos e problematizar uma questão aparentemente dada como óbvia: os tabletsnetbooks, as lousas digitais e a linguagem audiovisual estão invadindo as escolas, mas de que maneira e à serviço de qual modelo de educação? Por que a relação entre audiovisual e escola encontra-se bem posicionada na armadilha das “novas tecnologias” e das “novas metodologias” a serem incorporadas de maneira instrumental e gradual? Nessa armadilha, nós professores, figuraremos como consumidores passivos de aparatos eletrônicos e materiais didáticos, reciclados para telas brilhantes, repletas de links alheios aos nossos planejamentos. Ao lado desses aparatos irresistíveis da modernidade, seremos alvos cada vez mais constantes do discurso desqualificador da má formação docente, frequentemente associado aos cursos à distância que pouco tem a ver com uma formação continuada de qualidade. 
Sob o véu inquestionável da imagem em movimento, o que está em jogo não é a aparente derrocada do professor rouco e orgulhoso de seu giz, com o qual ninguém quer se identificar. O que está, de fato, em jogo é a autonomia do professor sobre o seu fazer.[4]Desse modo, não há como discutir essa questão sem uma reflexão mais profunda sobre a escola e o mundo contemporâneo. Buscamos uma reflexão capaz de problematizar o cenário prático e gradual apontado pelos documentos oficiais e por muitos gestores, segundo o qual a relação entre audiovisual e educação se reduz à compra de equipamentos e à formação dos professores para lidar com a nova linguagem em suas disciplinas específicas.
Convido vocês a pensar na seguinte questão: como construir uma escola audiovisual e não apenas uma escola com recursos audiovisuais? 

[1] O “Programa Ampliar” da Prefeitura de São Paulo foi criado pelo Decreto nº 52.342 de 26/05/11 e pela Portaria 2750 da SME de 27 de maio de 2011, com o objetivo de contribuir para a “melhoria do desenvolvimento e das aprendizagens dos alunos”, “o protagonismo do aluno”, “o enriquecimento curricular” e “a melhoria do convívio”. Seu objetivo é desenvolver atividades pedagógicas fora do horário regular de aula. Desenvolvi na EMEF Paulo Colombo, ao longo de 2012, uma oficina de linguagem audiovisual com 4 aulas semanais voltadas para a análise da linguagem audiovisual e seus fundamentos, o enriquecimento do repertório audiovisual dos alunos e também a produção de diferentes produções audiovisuais (curtas documentais, ficcionais, montagens, críticas sobre conteúdos audiovisuais etc.). Alguns dos resultados podem ser vistos no site: http://www.lousaeclaquete.com.br. Acesso: 10/12/2012.
[2] A oficina de cinema Tela Brasil é realizada pela Buriti Filmes em todo o Brasil em associações, ONGs e escolas públicas. O projeto é a realização de uma oficina intensiva ao longo de 11 dias consecutivos, com o objetivo de discutir a linguagem audiovisual e também realizar quatro curtas metragens. No portal Tela Brasil (www.telabr.com.br), há um rico acervo de curtas realizados e também textos, exercícios interativos e orientações didáticas relacionadas ao ensino e à linguagem audiovisual. A experiência da oficina Tela Brasil na EMEF Paulo Colombo foi muito rica e, ainda que rápida, fortaleceu muito o trabalho desenvolvido na escola.
[3] Cf. BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. “Documentos não escritos na sala de aula”. In: Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo, Cortez, 2011.
[4] SILVA, Marcos. “A vida e o cemitério dos vivos”. In: SILVA, Marcos (org.). Repensando a história. Rio de Janeiro, Marco Zero, 1984.


 por Thiago de Faria e Silva in http://encuentro.educared.org/?WT.mc_id=Ning_PT_20121217

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Katty Rasga